Publicado por: poeticasdigitais | agosto 23, 2011

CATAVENTO em Brasília

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Ontem levaram de Brasília um céu, cheinho de nuvens. Quem viu, sentiu falta e mesmo saudade! O céu não pôde esperar mais e foi!

Dentro do contexto da exposição #Em meios 2011, havia uma obra que consistia numa projeção de uma palavra: C É U, construída com imagens que simulavam nuvens. Essa projeção foi feita por duas vezes no lado externo da cúpula do Museu Nacional da República no finzinho da tarde começinho da noite. Isoladamente, observando apenas o aspecto gráfico da obra claramente se destacava da palavra suas letras, cada uma delas podendo ser uma ou mais mini cúpulas esticadas ou encolhidas aqui e ali: C Ɛ U.E isso sendo projetado sobre a cúpula maior do Museu: ᴒ.

Com certeza daí temos material para uma crítica do tipo daquelas que são escritas por Arthur C. Danto, desde que ele batizou de significado incorporado a arte visual, ou seja, de pensamento (significado ou afirmação sobre o mundo e a vida) mais objeto (o modo que isso se apresenta). Nesse caso que descrevemos, o significado seria uma sentença ou afirmação sobre o céu, por exemplo, a de se perguntar quantos céus existe no céu ou com quantos céus de faz um céu, já que a palavra esconderia em sua grafia pequenas cúpulas por sua vez projetadas por nuvens sobre uma cúpula maior: uma espécie de, em termos antigos, abóbada celeste. Mas ainda não terminou, porque aquilo que faz variar na palavra CÉU sua grafia constantemente em modificação, como nuvens, é o vento. Sim, esse é uma dado que eu ainda não havia mencionado: uma biruta eletrônica envia informações sobre a origem e intensidade do vento para um equipamento específico ligado a um programa de computador que, a partir dessas informações, gera as imagens em formato de nuvem com a grafia reconhecível: C Ɛ U. O que a obra pensa sobre o mundo e diz poderia ser, e assim foi para mim: muitos céus fazem o céu e sem vento não há céu ou ainda quanto menos vento menos céu! São afirmações poéticas sobre a vida e daí pode-se entender muitas coisas, mas ainda falta a paisagem que compõe a obra, onde ela está e com o que interage de uma perspectiva arquitetural.

Visto um pouco mais afastada rumo oeste e usando o espaço vazio que os monumentos sempre precisam para ser apreciados, à cúpula-abóbada celeste cravada no concreto do chão, somamos ainda a Catedral e ao fundo o Congresso Nacional e os Ministérios. Acima de tudo a lua cheia ocupava o céu junto com nuvens e com vento. Nuvens em agosto são raras em Brasília, mas elas estavam lá nessa hora, juro! Sem querer, percebi uma combinação um tanto antiquada, mas curiosa: o Congresso dos homens, a igreja católica e a abóbada da arte estavam alinhadas naquele quadro vivo. Da terra e dos homens para o céu e arte com a ligação da religião tudo numa única paisagem iluminada pela lua que tudo parecia ver. Daí também poderiam discorrer por muitas páginas os críticos de orientação mais sociológica ou religiosa. O que, entretanto, me assombrava silenciosamente não era nada disso, mas ter visto naquele espelho d´água que também compunha a cena a lua refletida e mais uma vez isolada de tudo: seja lá em cima ou no espelho cá embaixo, as duas luas afastadas das nuvens que formavam o C Ɛ U da abóbada do Museu.

Para mim, isso soava aos olhos mais uma obra gerada pelos C Ɛ U S projetados na abóbada do Museu e pelo céu também, lembrando que arte e poesia estão por toda parte, porque partem de dentro de cada um. E mais, vi no S e na inversão gráfica da parte de cima da letra espelhada na parte de baixo o que as luas e os ventos não conseguiram naqueles dias em que a obra estava exposta: unir o C Ɛ U com o céu fazendo aparecer como uma mágica C Ɛ U S no singular!

texto: miguel gally

imagens: tatiana travisani

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